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Quem sou eu
O meu nome é Maria Manuel Freitas, sou profissional de saúde há mais de 30 anos e filha de pais com demência.
Sei o quão frustrante e desgastante pode ser cuidar de alguém com esta doença. Conheço a dor de ver alguém que amamos e admiramos transformar-se em alguém que já não reconhecemos; a impotência de não conseguir travar o processo, por mais que nos esforcemos; a luta constante por manter vivas as memórias e não deixar que a raiva e a sensação de perda nos dominem.
Após o diagnóstico dos meus pais, uma das minhas maiores angústias era pensar na dor que sentiria no dia em que não me reconhecessem.
O meu pai nunca deixou de me reconhecer, mas as vezes em que a minha mãe me trata pelo nome já são tão raras, que quando acontecem, são motivo de celebração. No entanto, mesmo quando ela me pergunta pela minha mãe (!…), eu sei que, algures no seu íntimo, ela sabe quem eu sou. A expressão do seu rosto quando me vê e a forma como por vezes me faz uma carícia, dizem-me aquilo que a doença já não lhe permite expressar.
É por isso que tento aproveitar da melhor forma possível os nossos momentos juntas. Mesmo que a memória se tenha perdido, a emoção continua presente; e é essa emoção que eu tento estimular diariamente, para não permitir que a demência nos leve tudo.
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