A verdade sobre a Demência: 40% dos casos podem ser evitados

A demência é frequentemente vista como uma das consequências mais assustadoras e inevitáveis do envelhecimento. Com as projecções a indicarem que o número de pessoas a viver com demência poderá atingir os 152 milhões até 2050, esta perspectiva pode parecer esmagadora.
A condição afecta não só os indivíduos, mas também as suas famílias e a economia global, gerando um sentimento de impotência.
No entanto, um relatório marcante da prestigiada revista The Lancet oferece uma mensagem de esperança e capacitação. A sua principal conclusão é surpreendente: cerca de 40% dos casos de demência em todo o mundo poderiam, teoricamente, ser prevenidos ou retardados.
Esta descoberta altera fundamentalmente a nossa forma de encarar a demência, transformando-a de uma sentença inevitável para uma condição que podemos influenciar activamente ao longo da vida. Este avanço na compreensão da saúde cerebral revela que as escolhas de estilo de vida e a gestão da saúde ao longo da vida desempenham um papel crucial.
O paradoxo optimista: O risco está a diminuir, mesmo que os números estejam a aumentar.
Uma das descobertas mais contra-intuitivas do relatório é que, apesar do número total de pessoas com demência estar a aumentar devido ao envelhecimento da população, a incidência específica por idade tem vindo a diminuir em muitos países de rendimento elevado, como os EUA, o Reino Unido e a França.
Isto significa que uma pessoa de 70 anos hoje tem, em média, um risco menor de desenvolver demência do que uma pessoa da mesma idade há algumas décadas. Os cientistas atribuem esta tendência positiva a melhorias na educação, nutrição, cuidados de saúde e alterações no estilo de vida. Este fenómeno é a prova viva de que a prevenção funciona e que as mudanças a nível social e individual podem ter um impacto real.
O relatório da The Lancet baseia a sua conclusão optimista num modelo de 12 factores de risco modificáveis ao longo da vida. A sua abordagem enfatiza que o risco não é estático; diferentes factores são mais impactantes em diferentes fases da vida, o que significa que há sempre oportunidades para intervir. O objectivo é construir e manter a “reserva cognitiva” – a resiliência do cérebro a danos – através de acções contínuas. Os 12 factores de risco foram organizados de acordo com a fase da vida em que o seu impacto é mais crítico:
1. Factores de Risco no Início da Vida (até aos 45 anos)
As acções tomadas no início da vida constroem a base para a saúde cerebral futura. As experiências durante a infância e a juventude ajudam a desenvolver uma resiliência neurológica que pode proteger contra a demência décadas mais tarde.
• Baixo nível de escolaridade
Um menor nível de escolaridade durante a infância e adolescência é o factor de risco mais significativo nesta fase da vida. A educação ajuda a construir a chamada reserva cognitiva, que é a capacidade do cérebro de se adaptar e preservar a função, mesmo perante alterações patológicas associadas à demência. Podemos imaginá-la como uma rede de estradas mais complexa no cérebro; se uma estrada for bloqueada, existem muitas outras rotas alternativas para a informação percorrer. Por esta razão, a principal conclusão do relatório é que a educação na infância é uma prioridade global para a prevenção da demência, pois contribui de forma decisiva para a construção desta reserva protectora.
Com uma base sólida construída no início da vida, a atenção volta-se para os riscos que surgem durante a meia-idade, um período crítico para a gestão da saúde.
2. Factores de Risco na Meia-Idade (dos 45 aos 65 anos)
A meia-idade é um período crítico para gerir factores de risco relacionados com a saúde e o estilo de vida, que podem influenciar directamente a saúde cerebral mais tarde. As escolhas feitas nesta fase têm um impacto profundo na trajectória do envelhecimento cerebral.
• Perda Auditiva:
A perda auditiva é um factor de risco significativo para a demência.
A principal recomendação do relatório é o uso de aparelhos auditivos, que parecem reduzir este risco acrescido. Acredita-se que isto ocorra porque os aparelhos auditivos diminuem o isolamento social e aumentam a estimulação cognitiva, mantendo o cérebro mais activo.
• Traumatismo Cranioencefálico (TCE):
As lesões na cabeça representam um risco claro. Mesmo um único TCE grave aumenta a probabilidade de desenvolver demência, e o risco acumula-se com o número de lesões ao longo da vida. A prevenção de quedas e a protecção em desportos e actividades de risco são, por isso, cruciais.
• Hipertensão:
A hipertensão persistente na meia-idade, e especificamente uma pressão arterial sistólica de 130 mm Hg ou superior aos 50 anos, está associada a um maior risco de demência mais tarde na vida. O relatório salienta que o tratamento anti-hipertensivo é a única medicação preventiva conhecida para a demência.
• Consumo Excessivo de Álcool:
Consumir mais de 21 unidades de álcool por semana – onde cada unidade equivale a 10 ml ou 8 g de álcool puro – está associado a um aumento do risco de demência. Curiosamente, o relatório também observou que a abstinência total e prolongada na meia-idade estava associada a um risco acrescido em comparação com o consumo ligeiro a moderado, sublinhando a complexa relação do álcool com a saúde cerebral.
• Obesidade:
A obesidade na meia-idade, definida como um Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30, está associada a um risco aumentado de demência na terceira idade.
Mesmo após a meia-idade, existem ainda oportunidades importantes para adoptar hábitos saudáveis e reduzir o risco de demência.
3. Factores de Risco na Terceira Idade (após os 65 anos)
Nunca é tarde demais para adoptar comportamentos que protegem o cérebro. As acções tomadas na terceira idade continuam a ter um impacto significativo na saúde cognitiva.
• Tabagismo:
Fumar aumenta o risco de demência devido aos seus efeitos vasculares e tóxicos. Além do risco para o próprio fumador, a exposição ao fumo passivo é também um factor de risco a ser considerado. O relatório sublinha uma mensagem de esperança: deixar de fumar, mesmo em idade avançada, reduz significativamente este risco.
• Depressão:
A depressão está associada ao aumento do risco de demência, sendo a relação complexa. A depressão pode ser um factor de risco independente, mas também pode ser um sintoma precoce (prenúncio) da própria demência, aparecendo anos antes do diagnóstico clínico.
• Isolamento Social:
O baixo contacto social e a solidão aumentam o risco de demência. Manter-se socialmente activo ajuda a construir e a manter a reserva cognitiva e está modestamente associado a uma redução do risco, além de incentivar outros comportamentos benéficos.
• Inactividade Física:
A inactividade física é um factor de risco bem estabelecido. A recomendação principal é que o exercício físico sustentado na meia-idade, e possivelmente na terceira idade, protege contra a demência e ajuda a manter a reserva cognitiva. Isto ocorre, em parte, porque reduz outros riscos que também abordamos, como a obesidade, a diabetes e as doenças cardiovasculares.
• Diabetes:
A diabetes tipo 2 é um factor de risco claro para o desenvolvimento de demência. Como já foi mencionado, a gestão deste factor de risco está directamente ligada à prática de exercício físico e ao controlo da obesidade, o que reforça a interligação entre estes hábitos de vida.
• Poluição do Ar:
A exposição a poluentes atmosféricos, como o dióxido de azoto (NO₂) e as partículas finas (PM2.5) – comuns no trânsito e na queima de lenha – está associada a uma maior incidência de demência. Acredita-se que os poluentes atmosféricos possam acelerar processos neurodegenerativos, possivelmente através de mecanismos vasculares que afectam o cérebro.
Isto realça a importância de políticas de saúde pública que visem a melhoria da qualidade do ar.
Conclusão: Capacitados para agir em qualquer idade
A mensagem central do relatório da The Lancet é profundamente optimista: a prevenção da demência não é uma fantasia, mas uma possibilidade real e capacitadora ao nosso alcance. Longe de ser uma condição puramente genética ou uma inevitabilidade da idade, uma parte significativa do risco está ligada a factores que podemos modificar.
A orientação mais importante é que a prevenção é um projecto para toda a vida. Como o relatório afirma de forma memorável, “nunca é demasiado cedo e nunca é demasiado tarde no curso da vida para a prevenção da demência”. As escolhas que fazemos na juventude, na meia-idade e na velhice contribuem para a nossa reserva cognitiva e para a saúde do nosso cérebro.
Que pequena mudança pode fazer hoje para investir na saúde do seu cérebro de amanhã?
Fonte: Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of he Lancet Commission
