A verdade sobre a Demência: 40% dos casos podem ser evitados

A verdade sobre a Demência: 40% dos casos podem ser evitados

A demência é frequentemente vista como uma das consequências mais assustadoras e inevitáveis do envelhecimento. Com as projecções a indicarem que o número de pessoas a viver com demência poderá atingir os 152 milhões até 2050, esta perspectiva pode parecer esmagadora.
A condição afecta não só os indivíduos, mas também as suas famílias e a economia global, gerando um sentimento de impotência.

No entanto, um relatório marcante da prestigiada revista The Lancet oferece uma mensagem de esperança e capacitação. A sua principal conclusão é surpreendente: cerca de 40% dos casos de demência em todo o mundo poderiam, teoricamente, ser prevenidos ou retardados.
Esta descoberta altera fundamentalmente a nossa forma de encarar a demência, transformando-a de uma sentença inevitável para uma condição que podemos influenciar activamente ao longo da vida. Este avanço na compreensão da saúde cerebral revela que as escolhas de estilo de vida e a gestão da saúde ao longo da vida desempenham um papel crucial.

O relatório da The Lancet baseia a sua conclusão optimista num modelo de 12 factores de risco modificáveis ao longo da vida. A sua abordagem enfatiza que o risco não é estático; diferentes factores são mais impactantes em diferentes fases da vida, o que significa que há sempre oportunidades para intervir. O objectivo é construir e manter a “reserva cognitiva” – a resiliência do cérebro a danos – através de acções contínuas. Os 12 factores de risco foram organizados de acordo com a fase da vida em que o seu impacto é mais crítico:


1. Factores de Risco no Início da Vida (até aos 45 anos)

As acções tomadas no início da vida constroem a base para a saúde cerebral futura. As experiências durante a infância e a juventude ajudam a desenvolver uma resiliência neurológica que pode proteger contra a demência décadas mais tarde.

• Baixo nível de escolaridade

Um menor nível de escolaridade durante a infância e adolescência é o factor de risco mais significativo nesta fase da vida. A educação ajuda a construir a chamada reserva cognitiva, que é a capacidade do cérebro de se adaptar e preservar a função, mesmo perante alterações patológicas associadas à demência. Podemos imaginá-la como uma rede de estradas mais complexa no cérebro; se uma estrada for bloqueada, existem muitas outras rotas alternativas para a informação percorrer. Por esta razão, a principal conclusão do relatório é que a educação na infância é uma prioridade global para a prevenção da demência, pois contribui de forma decisiva para a construção desta reserva protectora.


Com uma base sólida construída no início da vida, a atenção volta-se para os riscos que surgem durante a meia-idade, um período crítico para a gestão da saúde.



2. Factores de Risco na Meia-Idade (dos 45 aos 65 anos)

A meia-idade é um período crítico para gerir factores de risco relacionados com a saúde e o estilo de vida, que podem influenciar directamente a saúde cerebral mais tarde. As escolhas feitas nesta fase têm um impacto profundo na trajectória do envelhecimento cerebral.

• Perda Auditiva:

A perda auditiva é um factor de risco significativo para a demência.
A principal recomendação do relatório é o uso de aparelhos auditivos, que parecem reduzir este risco acrescido. Acredita-se que isto ocorra porque os aparelhos auditivos diminuem o isolamento social e aumentam a estimulação cognitiva, mantendo o cérebro mais activo.

• Traumatismo Cranioencefálico (TCE): 

As lesões na cabeça representam um risco claro. Mesmo um único TCE grave aumenta a probabilidade de desenvolver demência, e o risco acumula-se com o número de lesões ao longo da vida. A prevenção de quedas e a protecção em desportos e actividades de risco são, por isso, cruciais.

• Hipertensão:

A hipertensão persistente na meia-idade, e especificamente uma pressão arterial sistólica de 130 mm Hg ou superior aos 50 anos, está associada a um maior risco de demência mais tarde na vida. O relatório salienta que o tratamento anti-hipertensivo é a única medicação preventiva conhecida para a demência.

• Consumo Excessivo de Álcool:

Consumir mais de 21 unidades de álcool por semana – onde cada unidade equivale a 10 ml ou 8 g de álcool puro – está associado a um aumento do risco de demência. Curiosamente, o relatório também observou que a abstinência total e prolongada na meia-idade estava associada a um risco acrescido em comparação com o consumo ligeiro a moderado, sublinhando a complexa relação do álcool com a saúde cerebral.

• Obesidade:

A obesidade na meia-idade, definida como um Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30, está associada a um risco aumentado de demência na terceira idade.


Mesmo após a meia-idade, existem ainda oportunidades importantes para adoptar hábitos saudáveis e reduzir o risco de demência.



3. Factores de Risco na Terceira Idade (após os 65 anos)

Nunca é tarde demais para adoptar comportamentos que protegem o cérebro. As acções tomadas na terceira idade continuam a ter um impacto significativo na saúde cognitiva.

• Tabagismo:

Fumar aumenta o risco de demência devido aos seus efeitos vasculares e tóxicos. Além do risco para o próprio fumador, a exposição ao fumo passivo é também um factor de risco a ser considerado. O relatório sublinha uma mensagem de esperança: deixar de fumar, mesmo em idade avançada, reduz significativamente este risco.

• Depressão:

A depressão está associada ao aumento do risco de demência, sendo a relação complexa. A depressão pode ser um factor de risco independente, mas também pode ser um sintoma precoce (prenúncio) da própria demência, aparecendo anos antes do diagnóstico clínico.

• Isolamento Social:

O baixo contacto social e a solidão aumentam o risco de demência. Manter-se socialmente activo ajuda a construir e a manter a reserva cognitiva e está modestamente associado a uma redução do risco, além de incentivar outros comportamentos benéficos.

• Inactividade Física:

A inactividade física é um factor de risco bem estabelecido. A recomendação principal é que o exercício físico sustentado na meia-idade, e possivelmente na terceira idade, protege contra a demência e ajuda a manter a reserva cognitiva. Isto ocorre, em parte, porque reduz outros riscos que também abordamos, como a obesidade, a diabetes e as doenças cardiovasculares.

• Diabetes:

A diabetes tipo 2 é um factor de risco claro para o desenvolvimento de demência. Como já foi mencionado, a gestão deste factor de risco está directamente ligada à prática de exercício físico e ao controlo da obesidade, o que reforça a interligação entre estes hábitos de vida.

• Poluição do Ar:

A exposição a poluentes atmosféricos, como o dióxido de azoto (NO₂) e as partículas finas (PM2.5) – comuns no trânsito e na queima de lenha – está associada a uma maior incidência de demência. Acredita-se que os poluentes atmosféricos possam acelerar processos neurodegenerativos, possivelmente através de mecanismos vasculares que afectam o cérebro.
Isto realça a importância de políticas de saúde pública que visem a melhoria da qualidade do ar.



Conclusão: Capacitados para agir em qualquer idade

A mensagem central do relatório da The Lancet é profundamente optimista: a prevenção da demência não é uma fantasia, mas uma possibilidade real e capacitadora ao nosso alcance. Longe de ser uma condição puramente genética ou uma inevitabilidade da idade, uma parte significativa do risco está ligada a factores que podemos modificar.

A orientação mais importante é que a prevenção é um projecto para toda a vida. Como o relatório afirma de forma memorável, “nunca é demasiado cedo e nunca é demasiado tarde no curso da vida para a prevenção da demência”. As escolhas que fazemos na juventude, na meia-idade e na velhice contribuem para a nossa reserva cognitiva e para a saúde do nosso cérebro.



Fonte: Dementia prevention, intervention, and care: 2020 report of he Lancet Commission