FÉRIAS E DEMÊNCIA

FÉRIAS E DEMÊNCIA

Guia prático para planear e desfrutar de uma viagem tranquila


Viajar com uma pessoa com demência não tem de ser sinónimo de stress.

Dá mais trabalho, sim — mas com planeamento antecipado, uma mala bem pensada e algumas rotinas mantidas, pode ser uma experiência boa para os dois.

Este guia junta, por etapas, tudo o que vale a pena saber antes, durante e depois da viagem.

1. Vale a pena viajar? Os benefícios

Antes de mais, a boa notícia: viver com demência não significa ter de deixar de viajar ou de participar em actividades com significado. Umas férias bem planeadas podem trazer benefícios reais, tanto para a pessoa com demência como para quem cuida dela:

  • Estimulação através de novas experiências — conhecer pessoas, lugares e actividades diferentes reforça a autoconfiança.
  • Experiências partilhadas — muitos cuidadores sentem que a relação melhora depois de tempo passado juntos fora de casa.
  • Recordar o passado — revisitar locais familiares (a praia, a casa onde viveu) pode trazer memórias felizes através de cheiros, sons e sabores.
  • Reconexão com a identidade — visitar família, amigos ou o país/região de origem (incluindo ouvir a língua materna ou o sotaque regional) ajuda a pessoa a sentir-se “ela própria”.
  • Contacto com a natureza — tempo ao ar livre melhora o humor e a sensação de bem-estar e presença.


2. Antes de decidir: perguntas a fazer

Decidir marcar uma viagem é um passo importante. Nem sempre é fácil saber se a pessoa vai beneficiar das férias ou se vai ter dificuldade em adaptar-se. Reflicta sobre estas perguntas:

  • A pessoa gostava de viajar ou sempre achou isso stressante?
  • Como reage normalmente a ambientes novos? Fica confusa ou angustiada com mudanças de local, comida, idioma ou roupa?
  • Como acha que vai reagir a mudanças de temperatura ou fuso horário?
  • Vai aguentar bem fisicamente o tempo de viagem? Precisa de ajuda para entrar e sair de carros, comboios ou aviões?
  • Se houver controlos de segurança (aeroporto), vai perceber porque tem de tirar objectos pessoais?
  • O alojamento e a zona à volta são acessíveis, se houver dificuldades de mobilidade (rés-do-chão, elevador)?
  • Se precisar de apoio para ir à casa de banho ou tiver incontinência, é possível gerir isso durante a viagem?
  • Se a prática religiosa for importante para ela, vai haver oportunidade de a manter?


Vale a pena estar atento a sinais que sugerem que uma viagem mais longa, com noites fora de casa, pode não correr bem:

  • Desorientação e agitação frequentes em ambientes desconhecidos.
  • Reacções fortes a multidões ou ruído.
  • Problemas de incontinência.
  • Vontade de “ir para casa” mesmo em saídas curtas.
  • Comportamento de deambulação (vaguear sem destino).
  • Comportamentos desinibidos ou reactivos com frequência.
  • Delírios ou alucinações frequentes.

Nenhum destes sinais impede automaticamente uma viagem — mas ajudam a decidir entre uma viagem de um dia ou uma estadia mais longa.


Para algumas pessoas com demência, viajar simplesmente não é boa ideia — por ansiedade, mobilidade ou porque as mudanças são demasiado confusas. Não se sinta culpado por isso. Pode ainda assim procurar novas experiências perto de casa: actividades locais, um passeio de um dia a um sítio próximo ou revisitar lugares familiares na região.

3. Planear com antecedência


O planeamento é a palavra-chave em quase todos os conselhos sobre este tema. Alguns pontos a decidir logo no início:

  • Duração da estadiaviagens mais curtas costumam ser mais fáceis de gerir; um passeio de um dia pode ser suficiente sem precisar de dormir fora.
  • Destino — um local já conhecido, ou pelo menos parecido com a rotina habitual, tende a gerar menos ansiedade do que um sítio totalmente novo.
  • Fuso horário — escolher um destino que não implique muitas mudanças de fuso ajuda a manter a rotina.
  • Meio de transporte — opte pelo meio de transporte que melhor se adapte às necessidades da pessoa. Se for bem planeada, a viagem pode ser também uma experiência agradável, especialmente se incluir percursos tranquilos de carro, comboio ou barco.
  • Actividades — organizar o roteiro à volta do que a pessoa gosta ou gostava de fazer; evitar programas turísticos demasiado intensos ou com muitas atividades, que podem ser cansativos e gerar confusão e ansiedade.
  • Proximidade de serviços de saúde — dar preferência a destinos com fácil acesso a farmácias e serviços de emergência.
  • Falar com o médico da pessoa sobre os planos de viagem.
  • Se a viagem for longa, considerar fazer primeiro uma viagem-teste mais curta, para perceber que desafios podem surgir.
  • Ter sempre um plano B: seguro de viagem e um plano de contingência para encurtar ou cancelar as férias se a situação se tornar difícil para qualquer um dos dois.
  • Informar-se bem sobre o local que vai visitar, de modo a antecipar eventuais necessidades e evitar imprevistos
  • Sempre que possível, viajar fora das horas de ponta e das épocas de maior afluência, para evitar multidões e longos tempos de espera
  • Se ficar num hotel, avisar a recepção com antecedência das necessidades específicas da pessoa.


Sempre que possível, falar com a pessoa sobre a viagem e envolvê-la nas decisões — que tipo de férias gostaria de ter, o que gostava de fazer, etc. Dê-lhe uma cópia do itinerário para consultar.

Nota: Se a pessoa já não tiver capacidade para tomar decisões por si própria, cabe ao cuidador avaliar se a viagem é do seu melhor interesse.


4. O que levar

  • Nome e contactos dos médicos.
  • Lista de medicação actual e respectivas dosagens.
  • Lista de alergias alimentares ou a medicamentos.
  • Cópias de documentos legais (testamento vital, procuração, directivas antecipadas de vontade, etc.), em papel e digitalizadas.
  • Informação do seguro (número de apólice, nome do titular).
  • Contactos de emergência — família e amigos a contactar em caso de necessidade.
  • Números de telefone e as moradas dos principais serviços de emergência do destino, incluindo polícia, bombeiros, hospital e centro de informação anti-venenos.
  • Uma fotografia recente da pessoa, em papel e em versão digital — útil caso seja preciso pedir ajuda para a localizar.

  • Medicação — levar sempre mais do que o previsto (pelo menos um dia extra), para o caso de atrasos.
  • Itinerário da viagem, com detalhes de cada destino — deixar cópias com família ou contactos de emergência em casa.
  • Muda de roupa confortável.
  • Água e snacks.
  • Actividades para ocupar a pessoa durante trajectos longos: música preferida, fotografias, um livro de colorir para adultos.
  • Um cartão discreto que diga algo como “a pessoa que me acompanha vive com demência — obrigado pela paciência“, para mostrar a pessoal de hotéis, restaurantes ou companhias aéreas, se achar útil.


5. Durante a viagem

  • Viajar na altura do dia que for melhor para a pessoa — se costuma ficar mais agitada ao final da tarde, evitar viajar a essa hora.
  • Não a sobrecarregar com demasiadas instruções ou informação de cada vez.
  • Reservar tempo generoso para descanso — não sobrelotar o roteiro com actividades.
  • Aprender a reconhecer sinais de ansiedade ou agitação e combinar com a pessoa, com antecedência, estratégias para os reduzir.
  • Lembre-se: mudanças no ambiente podem desencadear desorientação ou deambulação — mantenha a pessoa sempre por perto.

  • Reserve através de agência de viagens ou directamente com a companhia aérea, para poder pedir apoios específicos (cadeira de rodas, refeições especiais).
  • Evitar voos com ligações muito apertadas.
  • Se o aeroporto for desconhecido, consultar previamente o mapa das instalações — distância entre portas, onde poderá ser preciso repetir o controlo de segurança, localização das casas de banho.
  • Solicite assistência com cadeira de rodas ou veículo eléctrico se a pessoa apresentar dificuldades de mobilidade (a maioria das companhias aéreas exige um aviso prévio de, pelo menos, 48 horas). Mesmo que a pessoa caminhe sem grandes limitações, este apoio pode reduzir a fadiga, a confusão e o stress associados aos percursos no aeroporto e à passagem pelos controlos de segurança.
  • Considere avisar a companhia aérea de que vai voar com alguém com demência — pode pedir embarque prioritário ou transporte de/para a porta de embarque.
  • Não hesite em pedir ajuda à tripulação e aos funcionários do aeroporto.
  • Procure casas de banho com espaço para acompanhante, se a pessoa precisar de ajuda.
  • Mantenha-se sempre junto da pessoa.
  • Prepare previamente familiares e amigos para a visita, explicando a evolução da demência desde o último encontro e sugerindo formas de interagir com calma, empatia e paciência.
  • Avise antecipadamente que os planos poderão ter de ser ajustados ou a visita encurtada, caso as necessidades da pessoa assim o exijam.
  • Mantenha, tanto quanto possível, os horários habituais de refeições e de deitar.
  • Sempre que possível, privilegie as refeições em casa, onde o ambiente é mais calmo e familiar do que num restaurante com muito ruído e estímulos.
  • Considere levar um acompanhante que a pessoa já conheça bem, para partilhar as responsabilidades.
  • Seja realista quanto às capacidades e aos limites da pessoa e planeie cada actividade com tempo de sobra.


6. Não se esqueça de si


É fácil concentrar tudo na pessoa de que cuida e esquecer que também precisa de descansar. Pense também nas suas próprias necessidades ao planear:

  • Vai conseguir contactar a tua rede de apoio habitual se precisar de conselhos ou ajuda?
  • Se não se sentir bem durante a viagem, há alguém que possa apoiar a pessoa por si?
  • Reserve tempo para descansar durante as férias e também assim que regressar a casa.

» Confirmar com o médico que a viagem é adequada às condições de saúde da pessoa.

» Contratar um seguro de viagem e definir um plano alternativo para eventuais imprevistos.

» Preparar um itinerário escrito e partilhá-lo com familiares ou contactos de emergência.

» Levar medicação suficiente para toda a viagem, incluindo uma reserva para pelo menos mais um dia, e a respectiva lista de dosagens.

» Reunir os documentos médicos e legais, em formato impresso e digital.

» Levar uma fotografia recente da pessoa, em papel e no telemóvel.

» Preparar uma bolsa com os essenciais: água, snacks, medicação, muda de roupa e actividades de distracção.

» Informar o alojamento e os transportes sobre as necessidades específicas da pessoa, sempre que necessário.

» Solicitar previamente assistência ou outros apoios junto da companhia aérea, se aplicável.

» Garantir que o itinerário contempla pausas frequentes e momentos de descanso para ambos.